Curitiba tem sido o principal pólo de um inchaço urbano experienciado pelo Paraná nos últimos anos, onde tem-se uma taxa de crescimento do êxodo rural em volta de 25% ([WURMEISTER, 2008]) para uma diminuição de 10% a partir de 2000.
Existem esforços do estado como um todo para conter o fenômeno do êxodo rural que aparentam resultados significativos no Paraná. A criação de condições pautadas em desenvolvimento social e favoráveis à permanência das populações no campo são bastante importantes tanto para questões relacionadas à concentração de terras, reforma agrária e à saúde do trabalhador ([POLÍTICA PARA PEQUENOS..., 2008]).
Normalmente o êxodo rural desencadeia um inchaço das periferias e regiões pobres das grandes cidades que não têm condições de absorver socialmente e profissionalmente tantas pessoas ao fluxo em que elas chegam, e que por falta de emprego acabam envolvendo-se com o trabalho informal – dentre eles a catação ([ABRAMOVAY, 1999]).
O objetivo aqui em descrever o crescimento da cidade é demonstrar como as áreas mais pobres da cidade foram sistematicamente excluídas em certos momentos do plano de desenvolvimento urbanístico, e como este plano acaba servindo para desenvolver a cidade em aspectos socioambientais antagônicos ao bem estar da população pobre . Também, logicamente, procura-se desmistificar a imagem de cidade modelo passada por Curitiba.
A seguinte tabela: Índice de Desenvolvimento Humano – Municipal, 1991 e 2000. (Fonte: [PNUD, 2000]), com dados retirados do Atlas do Desenvolvimento Humano por si só esclarece a preocupante situação que Curitiba tem em relação à sua Região Metropolitana.
| Município | Posição no Brasil | Posição no Paraná |
| Curitiba | 16 | 1 |
| Pinhais | 296 | 14 |
| Araucária | 548 | 23 |
| São José dos Pinhais | 640 | 28 |
| [...] | [...] | [...] |
| Almirante Tamandaré | 2470 | 245 |
| Bocaiúva do Sul | 2655 | 273 |
| Tijucas do Sul | 2694 | 277 |
| Quitandinha | 2722 | 291 |
| Agudos do Sul | 2772 | 291 |
| Rio Branco do Sul | 2953 | 330 |
| Tunas do Paraná | 3221 | 370 |
| Cerro Azul | 3254 | 372 |
| Adrianópolis | 3268 | 374 |
| Itaperuçu | 3365 | 381 |
| Dr. Ulysses | 4179 | 398 |
| Total de Municípios | 5507 | 398 |
Índice de Desenvolvimento Humano – Municipal, 1991 e 2000.
(Fonte: [PNUD, 2000])
O objetivo em iconizar os municípios que compõem o norte da região metropolitana é justamente contrastar com o desenvolvimento do bloco como um todo. Ao passo que existem municípios altamente industrializado e que com fortes planos de incentivo atraíram grande capital como Araucária – extensão da Cidade Industrial de Curitiba ao sudoeste da capital – e São José dos Pinhais, existem outros com os piores indicadores do país a menos de 50Km da capital.
Mapa de Curitiba e dos municípios que enquadram a Região Metropolitana. (Fonte: [COMEC, 2009])
Se somente Curitiba na época do último censo e da angariação das informações necessárias à formulação do IDH possuía o 7º PIB do Brasil ([IBGE, 2005]), podem-se observar diversas relações que classificam a distribuição da riqueza econômica como desigual, e as estratégias de diminuição de diferenças sociais como deficitárias.
Abismos sociais não são nenhuma novidade na realidade brasileira, e não questiona-se aqui a concentração de riqueza na lógica do capital, mas sim procura-se enfatizar que este fenômeno torna impossível que os benefícios gerados tanto por iniciativas público-privadas ou pelas próprias riquezas naturais de uma região propaguem-se em raios socialmente significativos.
Se observado com mais atenção as áreas pobres de Curitiba – especialmente aquelas ao sul e centro-sul, não por acaso estas densidades coincidem muito com estratégias de desenvolvimento urbano que acabam por promover a desigualdade social na cidade.
Os projetos aqui citados dependeram em muito do direcionamento de recursos e sobretudo da política por parte das administrações da prefeitura. Isso envolve o fechamento de contratos, licitações e renovações que vão além aquém do período gestionário, assim como a ininterrupção de obras e comprometimento com a iniciativa privada para consolidação dos projetos. Outra questão ainda mais importante é a permanência dos profissionais nos cargos públicos indicados e a facilidade de transição entre as gestões, o que poupa tempo significativo e evita o retrabalho e rediscussão sobre diversas questões da cidade. Um comparativo bastante interessante pode ser feito entre as capitais de São Paulo, Rio de Janeiro e do Paraná para ilustrar como o cenário político de Curitiba contribuiu para a realização destes projetos centrais que nortearam o crescimento da cidade ([OLIVEIRA, 2000]).
A favor disto, Curitiba tem uma peculiaridade muito significativa em sua história: a continuidade do alinhamento político de suas gestões públicas. Este aspecto em especial possibilitou a consolidação de obras extra gestionárias maiores do que as que seriam possíveis caso o direcionamento mudasse com mais frequência. A principal incidência deste fato no presente trabalho foi analisar a extensão dada à execução do plano diretor, que acabou por ocorrer de uma maneira mais incisiva do que as outras grandes cidades brasileiras foram capazes de implementar ([OLIVEIRA, 2000]).
Observando a Tabela 2, pode-se constatar que a partir de 1989 Curitiba permanece praticamente sobre o mesmo alinhamento político até hoje, pois mesmo embora hajam divergências entre os partidos de direita que se sucederam, seus direcionamentos na gestão pública foram essencialmente liberais, e no caso de Curitiba seguem o mesmo plano de desenvolvimento proposto anteriormente pela Aliança Renovadora Nacional, e mais tarde pela gestão de Jaime Lerner.
| Mandato | Prefeito | Partido | Observação[1] |
| 1962-65 | Ivo Arzu | - | Plano Diretor de 1965 |
| 1966-71 | Omar Sabbag | - | Oposição ao plano |
| 1971-75 | Jaime Lerner[2] | ARENA | Reimplementação do plano |
| 1975-79 | Saul Raiz[2] | ARENA | Continuidade |
| 1979-83 | JaimeLerner[2] | ARENA | Curitiba: Cidade Planejada |
| 1983-85 | Maurício Fruet | PMDB | PDDU |
| 1985-88 | Roberto Requião | PMDB | Continuidade |
| 1989-92 | Jaime Lerner | PDT | Curitiba: Capital Ecológica |
| 1993-96 | Rafael Greca | PFL | Curitiba: Cidade Turística |
| 1997-00 | Cassio Taniguchi | PFL | Reforço no Transporte |
| 2001-04 | Cassio Taniguchi | PFL | Continuidade |
| 2005-08 | Beto Richa | PSDB | Linha Verde |
| 2009-12 | Beto Richa | PSDB | Metrô? |
Tabela 2: Relação dos prefeitos de Curitiba desde 1962. (Fonte:[PMC, 2009])
[1] Coluna não retirada da referência citada
[2] Indicados pela ditadura militar
Completam então em 2009, mais de 20 anos ininterruptos deste fenômeno peculiar de Curitiba, sem contar os mais de 10 anos também ininterruptos ocorridos anteriormente à conquista da prefeitura pelo velho Movimento Democrático Brasileiro ([PMC, 2009]), período em que ocorreu o planejamento e iniciação do PDDU, onde o grupo de Jaime Lerner aproveitou o intervalo de gestões para melhor organizar e aperfeiçoar este plano ([OLIVEIRA, 2000]).
Projetos urbanísticos aplicados à cidades do patamar de Curitiba caracterizam-se por serem irreversíveis a partir do momento que foram iniciados, ficando a cargo das próximas gestões dar continuidade ou desvirtuarem o que já foi iniciado, o que neste caso foi uma tarefa difícil que requer habilidade pública e amplo conhecimento do espaço social e urbano da cidade. Na interrupção oposicionista de Fruet e Requião o Plano Diretor foi complementado para esferas sociais e ambientais à qual não haviam sido enfatizadas anteriormente, sendo realizados os primeiros estudos para gerenciamento de resíduos sólidos de Curitiba ([NASCIMENTO, 2005]), assim como os primeiros contatos e projetos da prefeitura direcionados aos catadores ([JORNAL DO ESTADO, 1985]).
No mesmo período de 11 mandatos, desde o golpe militar de 1972, Curitiba teve 7 prefeitos, enquanto São Paulo teve 16, e Rio de Janeiro teve 12. A capital paranaense também alternou de linhagem política somente uma vez neste mesmo período, sendo que 5 prefeitos governaram a cidade durante 36 anos.
Em partes como consequência disso e até como fato mais relevante nos resultados da execução desse plano foi a falta de conflitos entre o poder público e a iniciativa privada, dando lugar à uma composição de interesses das obras públicas com diversos empreendimentos ([OLIVEIRA, 2000]), e mais marcadamente neste estudo com o ramo imobiliário.
A seguinte figura trata-se de uma representação presente no PPU de 1965 para expressar as diretivas de planejamento do espaço adotadas pelo programa. Percebe-se a clara exclusão da massa urbana do Boqueirão.
Proposta de esquema viário para Curitiba no PPU de 1965. (Fonte:[PMC, 1965])
Esta exclusão foi pautada em termos categoricamente econômicos e justificados pela adoção do cadastro do TRE e não do IBGE para moldagem da densidade populacional da cidade, assim estariam automaticamente exclusos os não eleitores, analfabetos e recém-imigrados, ou seja: os mais pobres ([SOUZA, 2001]).
“[...] o eleitor tende a ser das camadas sociais mais altas, e assim deixando de ser representada a população de camadas mais baixas. Isto em parte é contrabalançado pelo alto índice de alfabetização dos habitantes da Região Sul do país, e que constituem a maior parte dos imigrantes. ([PMC, 1965]; citado por [SOUZA, 2001])”
Mais tarde os eixos do sistema trinário seguiriam sobre estas direções propostas para o crescimento no PPU, resultando na super valorização do solo de vazios urbanos, especialmente os presentes a sul e a oeste da cidade. As populações que já viviam ao longo dessas avenidas foram pobremente indenizadas, e as que permaneceram o fizeram até ser possível arcar com o aumento tributário pelo uso do solo ([OLIVEIRA, 2000]), dando vez para grandes imobiliárias que aos poucos foram adquirindo lotes e maturando o custo do terreno até o momento mais conveniente para efetuar as construções.
Em primeira instância, o desenvolvimento de regiões já povoadas por populações mais pobres não pareceu ser prioridade, tendo ao invés disso estendido um braço de ruas estruturadas e bem planejadas para os bairros do Portão e Campo Comprido – o conhecido sistema trinário, que foram regiões que mais tarde viriam a ser o foco do mercado imobiliário de Curitiba até os dias de hoje, que compõem centros residenciais de alto padrão como o Ecoville, Água Verde, Bigorrilho e Cabral ([FILHO, 2009]).
Em curtos termos, este raro caso de cooperação entre o poder público e a iniciativa privada foi crucial para toda a notoriedade pertencente à capital parananense internacionalmente e também para a promoção pessoal e profissional de seus mentores. As regiões mais pobres e povoadas de Curitiba continuam sendo as mais pobres, já por outro lado, as regiões antes compostas por várzeas e banhados tornaram-se hoje grandes centros comerciais e residenciais. A proposta do PD reflete-se na densidade econômica encontrada na cidade ([FILHO, 2009]).
A adoção destas estratégias de desenvolvimento mostraram-se muito eficientes na criação de um núcleo elitizado no centro-norte da cidade, submetendo as regiões mais pobres às periferias e regiões metropolitanas, como mostra a seguinte figura.
Taxa de pobreza de Curitiba (Fonte: [IBGE, 2005])
A Curitiba ecológica e das propagandas é eficiente em diversos quesitos quando observada somente ao espectro do núcleo azul que abrange uma boa fatia da riqueza da região metropolitana. Os indicadores nestes bairros são realmente satisfatórios a nível de uma cidade que pode exportar sua imagem urbanista sem grandes preocupações, só que infelizmente os poréns ocorrem muito próximos dali ([FILHO, 2009]).
Também é interessante observar o mapa da violência de Curitiba e da Região Metropolitana, que não por acaso acompanha o analfabetismo em sua gravidade devida à próxima relação entre os indicadores no que diz respeito à qualidade de vida. Na região centro-norte raramente há um bairro com mais de um homicídio por ano, enquanto nas regiões mais ao sul chega-se facilmente a um por mês.
Mapa da violência de Curitiba e Região Metropolitana. (Fonte: [GAZETA DO POVO, 2007])
A discrepância das situações em regiões tão próximas colocam bem os contrastes vividos pela capital paranaense e aos poucos bairros de elite a que serve a forte economia da cidade. Estaria neste contexto a cultura desenvolvimentista, inovadora e socialmente correta de Curitiba colocada de maneira plural?
Ao analisar a história de um município pode-se também conhecer seus principais rumos. Neste processo foi importante esclarecer – e até desmistificar – saberes comuns que dizem respeito ao espaço urbano, e assim melhor analisar seus problemas ambientais e sociais.
Curitiba mostra com sua história um tratamento urbano bastante indigno para as massas mais pobres. As conquistas efetuadas no processo político-histórico deram-se principalmente devido à atuação de movimentos sociais, e subsídios para movimentação devem ser retiradas destas análises de construção do espaço urbano.
Esta situação impera tanto pelo fato de que Curitiba com o seu processo histórico de desenvolvimento urbano pôde isolar geograficamente aqueles que não poderiam contribuir com o fortalecimento do seu núcleo de elites, e também pela aparente apatia – ou até mesmo despropósito – do poder público quanto à mobilização popular.
Bibliografia
ABRAMOVAY, 1999: ABRAMOVAY, Ricardo; CAMARANO, Ana A., Êxodo Rural, Envelhecimento e Masculinização no Brasil: Panorama dos Últimos 50 Anos, 1999
COMEC, 2009: Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba, Mapa de Curitiba e Região Metropolitana, 2009
FILHO, 2009: FILHO, Paulo Bearzoti, O planejamento urbano exclusivo de Curitiba, 2009
GAZETA DO POVO, 2007: Gazeta do Povo, Mapa da Violência: Homicídios em Curitiba e na Região Metropolitana, 2007
IBGE, 2005: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Produto Interno Bruto dos Municípios 1999-2002, 2005
JORNAL DO ESTADO, 1985: Jornal do Estado, Lançado programa para amparar catadores de papel de Curitiba, 1985
NASCIMENTO, 2005: NASCIMENTO, Camila Victória; ROSENMANN, Leonardo Chemin, Sistema de Gerenciamento de Resíduos Sólidos Urbanos – Estudo de Caso: Curitiba, 2005
OLIVEIRA, 2000: OLIVEIRA, Denninson, Curitiba e o Mito da Cidade Modelo, 2000
PMC, 2009: Prefeitura Municipal de Curitiba, Relação dos Prefeitos de Curitiba, 2009
PMC, 1965: Prefeitura Municipal de Curitiba, Plano Preliminar de Urbanismo de Curitiba / Serete & Wilhem Associados, 1965
PNUD, 2000: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Índice de Desenvolvimento Humano – Municipal, 1991 e 2000, 2000
POLÍTICA PARA PEQUENOS…, 2008: Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, Política para pequenos agricultores evita êxodo rural no Paraná, aponta IBGE, 2008
SOUZA, 2001: SOUZA, Nelson Rosário
WURMEISTER, 2008: WURMEISTER, Fabiula, Ritmo do êxodo rural cai no PR, 2008



