O Farol de Matapouri, a Perda da Câmera e a Ponte Whananaki
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Este artigo é parte da série Diários da Nova Zelândia
- Auckland a Mangawhai Heads
- Whangarei, Parque Kauri e o Acampamento no Mirante de Tutukaka
- O Farol de Matapouri, a Perda da Câmera e a Ponte Whananaki
- Kerikeri, Rainbow Falls e Kapowairua
- Escalada da Colina Te Karaka em Kapowairua
- O Atolamento no Extremo Norte Proibido
- Dunas de Te Paki, Cape Reinga e Tapotupotu
- O Perigo de Se Atolar em 90 Mile Beach
- Buscando o Bernardo, Dormindo no Roger e Visitando a Adidas
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- Greymouth, Hokitika e Ross
- A Chegada em Arthur’s Pass
- A Subida do Mt Aicken
- As Geleiras: Fox Glacier e Franz Josef Glacier
- Quatro Dias em Queenstown
- Fiordland, Te Anau e Henry Creek
- A Grandeza de Milford Sound
- Contorcionismo Pelas Fendas de Clifden Caves
- Invercagill e Bluff
- Waipapa Pt e Jack’s Blowhole
Este foi de longe, mas muito de longe, o dia mais trágico que vivi na Nova Zelândia. Antes alguém houvesse morrido ou eu tivesse me machucado para desconsiderar a magnitude do fato, mas foi exatamente neste dia em que eu perdi a minha câmera. E sim, pode parecer um exagero, mas todos aqueles que já sofreram o mesmo em circunstâncias únicas sabem do que estou falando.
Todas as fotos de Northland são da máquina do Beto - a que ele comprou após ter sido furtado logo no primeiro mês em que estava na Nova Zelândia - o que limita um pouco as situações que vivemos devido ao fato de eu ter comprado duas baterias e ter um cartão de memória maior. Resultado: a bateria acabava logo e o espaço também.
O que faz deste dia tão trágico é o fato de que nele fizemos as duas trilha que mais gostei, a trilha do Farol de Matapouri e a trilha da Ponte Whanaki. Esta primeira foi escolhida um dia antes a partir da única referência local que era a legenda do mirante.
Logo que acordamos surpreendidos pela fria e bonita alvorada no mirante, um rapaz veio olhar a situação das ondas para surf e recomendou a mesma trilha. Começamos cedo após o tradicional pão de glicerol 80% com queijo sintético que comemos nas mesas do iate clube local lutando contra gaivotas.
A trilha era muito bonita em muitos sentidos, como se pode ver no mapa da referência do mirante, consistia em dois grandes morros, onde podia-se somente ir ao segundo em maré baixa. Subimos até o farol ultrapassando uma mata um pouco mais densa, e lá ficamos por umas 2 horas brincando, tirando lindas fotos sob o forte sol que gerava belas paisagens, e fazendo exercícios de yôga como se fôssemos profissionais. Demoramos bastante, e isso foi um erro mortal.
Ao voltar a maré estava mais cheia, e foi um perigoso contorcionismo pular uma garganta d’água que antes era somente um degrauzinho, além de cruzar a faixa de areia com a água bem mais alta em meio às pedras. Voltamos ao estacionamento e fomos ao banheiro, e ao retirar a minha blusa dei-me conta de que não estava mais com a câmera.
Voltamos e desvoltamos umas três vezes pelo caminho até o início da trilha. Perguntamos à todas as pessoas que vimos, revistamos tudo o que imaginávamos ser possível e reconstituímos virtualmente todos os nosso passos. Em vão. A câmera tinha-se ido junto com parte das memórias deste dia. A amargura e o sentimento de prejuízo só foram minimamente consolados quando encontramos um casal de pescadores, já bem idosos, que voltavam do início da trilha.
- Ah! Meu filho! Nossa, me desculpe, me desculpe mesmo, mas nada vimos! Sei como isso é horrível pois em Samoa derrubamos uma câmera na água no nosso último dia na ilha! - lamenta o senhor.
- E teve aquela vez em que deixamos a câmera no táxi ao voltar pro aeroporto depois das férias em Fiji, lembra-se? - complementa a senhora dirigindo-se ao seu companheiro.
Nada que resolvesse o problema, fomos conformados em direção ao norte com somente a câmera do Beto, sem bateria. Chegamos em Whananaki, uma cidade dividida por um enorme rio que só pode ser atravessado através da Ponte Whananaki, a maior ponte pedestre do hemisfério sul do planeta. Tomei a liberdade de roubar a foto de um usuário randômico do Picasa com fins de demonstração, afinal, a causa é nobre e solidária a um cara que perdeu a câmera.
Após fazer a trilha da ponte que envolve um pedaço da margem do rio e fazendas, seguimos para a porção norte da cidade de carro - pois a pé já havíamos chegado através da ponte. E neste momento prosseguimos até o final do vilarejo e relacionamos o indicativo de áreas de acampamento do mapa com áreas de acampamento gratuitas.
Bem, não digamos gratuita, pois estas áreas são mantidas pelo DoC (Departamento de Conservação da Nova Zelândia) que cobra NZ$7,00 diários por permanência. A alegria de estarmos fora de temporada e não termos encontrado nenhum fiscal nas guaritas das entradas dos campings era tão grande que não podíamos deixar de ignorar o pedido para preencher o formulário e depositar o dinheiro na caixinha da honestidade. Algumas caixinhas tinham seus cofres arrombados, inclusive, dando-nos a impressão que brasileiros passaram por ali.
Foi o primeiro banho depois de Auckland, e bem gelado, seguido da mesma janta do mês à beira de uma praia com paisagem bastante agradável. O receio de não pagar as áreas de acampamento do DoC logo passou, e o angustiante sentimento de prejuízo de ter perdido a câmera logo foi atenuando-se.


