Plagiando o título do artigo de Célio Bermann, também resolvi escrever sobre o assunto depois que vi o vídeo com atores da Globo em campanha contra a Usina de Belo Monte, intitulada de “Movimento Gota D’Água”. Neste vídeo, Murilo Benício, Marcos Palmeira, Letícia Sabatella, e até a Maitê Proença tirando a roupa, discursam contra a construção da usina em uma fórmula marqueteira copiada.
Como tudo que tem o dedo da Globo é suspeito, fiquei com muitas dúvidas em relação à tudo isso. Talvez a minha visão ainda reduzida sobre este assunto polêmico me impeça de ver o que ocorre por trás das movimentações. O fato é que discordo da campanha não porque ela é feita por atores “globais” – como se defender o meio ambiente fosse somente papel de índio e intelectual, mas porque ela estigmatiza ainda mais a discussão sobre esta obra, reduzindo-a a argumentos que não adentram no campo político.
O discurso mais forte para os favoráveis à usina é que o Brasil está crescendo e precisa de energia para o desenvolvimento. Se todos queremos ter microondas, computadores e iluminação em nossas casas, devemos ser a favor da usina, caso contrário vai ter apagão e teremos o caos do abastecimento de energia elétrica. Nesse contexto, o menor dos problemas seria colocar alguns índios para morar em habitações populares fora de seu território indígena – o que deve ser até mais confortável pra eles.
Mas como quase tudo que torna-se concepção popular, esta visão também é direta e simplista, para não dizer equivocada. Antes de mais nada devemos nos perguntar: A energia de Belo Monte irá mesmo servir o povo brasileiro? Este recurso a ser gerado no Pará vai atravessar 3.000km para ligar as geladeiras dos paulistas?
Temos que a construção de Belo Monte é uma questão de soberania para o Brasil, tanto quanto à biodiversidade quanto à economia. Hoje nosso país vive algumas condições absurdas no campo da exploração de minérios que envolvem, por exemplo, a exportação de ferro e alumínio e a importação de aço. A indústria de alumínio gera apenas 2,7 empregos para cada GWh, e isso acontece porque não produzimos metais para consumo interno. Somente os vendemos sem beneficiá-los em um processo industrial verticalizado.
A Usina de Belo Monte funcionará três meses por ano no período de cheias, e nesse tempo visará principalmente o abastecimento das multinacionais de alumínio e outros metais de base que demandam muita energia elétrica para serem produzidos. Neste contexto de exportação de matéria prima, não há limites para quantas hidrelétricas iremos precisar se quisermos aumentar a exploração de minérios.
A distribuição da energia elétrica no país é muito desigual. Indústrias que dão pouco retorno econômico e social são responsáveis por um alto consumo. As riquezas geradas pela exploração dos recursos da Amazônia não ficam na Amazônia, e também não possuem uma justa reposição dos impactos socio-ambientais que acarretam. Acaba que tudo vai-se embora em forma de lingotes metálicos e outras matérias primas não beneficiadas, enquanto comunidades inteiras migram para os bolsões de pobreza das periferias violentas no norte do país.
O histórico da exploração de minérios e construção de hidrelétricas no norte e nordeste é de revoltar qualquer patriota. Não há ganho econômico substancial para a região, as famílias afetadas não são apropriadamente remanejadas, e os projetos ambientais de contrapartida são irresponsáveis e insuficientemente compensatórios. Este modelo permite aos países desenvolvidos exportar sistematicamente para o Brasil os impactos ambientais da produção de matéria prima e ficar com os benefícios financeiros.
Seria muito melhor se o país revisse sua política industrial antes de investir em novas obras, e decidisse por vez se quer permanecer como mero exportador, ou se quer fazer uma exploração sustentável dos enormes recursos que possui. Em outras palavras, é preciso decidir se vamos continuar exportando energia e empregos em troca de um discurso falso de desenvolvimento nacional.
A campanha dos atores não é completamente ruim – já que chama a atenção para o tema, mas também não ajuda a politizar a discussão. Isso é em partes até compreensível, já que é muito delicado para uma movimentação deste tipo pedir para a classe média passar a compreender e apoiar os movimentos sociais, e introduzir toda uma discussão sobre um projeto político-industrial para o país que não cabe em uma mensagem direta e de fácil digestão.
Para os que querem saber mais, recomendo a leitura das análises técnico-científicas da seção de documentos do site Xingu Vivo.


















































